domingo, 11 de outubro de 2009

Um véu


Seu corpo de longo véu eu vestia
como as espumas cobrem as conchas e,
no fundo, suas pérolas fugidias.
Brilho, halo insurgente, a sua pele,
pois ralo o tecido deita corrido
deixando, no entanto, o sublime escapar-lhe
entre os dedos. Pelos poros. Seu cheiro
como um punho profundo a arrebatar-me
pelas veias. Pulmões como inspirando
fumaça de incenso - suor e seda.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

rua: cabeça pedra coração

avenida é Passarela do mundo
cada prédio prestes a pisar
dobras como ondas chegando na calçada
........................................testando passo
...........firmeza só na fronte franzida
...........rebitada,...cabeça,...calçada

.................................e olhos que não, nunquinha, dormem

"Contra todas as espectativas, no entanto,"
encostou o queixo na clavícula,
..............COMO QUEM encaçapa a bola no buraco

felicidade só soube depois,
mas ali
mas na hora
(na hora foi engraçado, como piada torta)

ida casualidade
passado incerto, vulga,
.....................................promessa

.................................................................de felicidade

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Nasce um lírio cinza

Nasce um lírio cinza,
vigiado por campos de epitáfios.
Fosse o mundo sonhado no sono dos mortos
seria a vida o outono sem fim
da vida do homem médio,
variações no terror monótono -
tédio.

........O que fazer quando as crianças
........precipitarem-se por sobre os prédios?
........O que fazer, irmão, quando os bilhetes
........suicidas não desdobrarem-se em mistérios?

Embora ruja o ser que sofre na noite
e do chão exale o enxofre fosforescente,
no dia ainda resta a franja
rota do resquício de sorriso,
do lirismo displicente que se suja
pelo caldo, e bebe o sumo, e lança
a casca a semear por entre inférteis
espaços, as sementes e os bagaços
da laranja.

Mas que fazer, irmã,
....com os restos de Deus pendurados no pescoço,
....com os feitiços secretos do livro esquecido?
Quando a arqueologia tornar-se esperança e
quando tornar-se imediatamente cancerígeno
o dedo que ousar tocar o pleno vazio
no peito?
....Quando as setas do anjos forem mísseis e os garfos
....demoníacos sedução, o que fazer, irmãos,
quando se nos apresentar em botão a flor radioativa,
quando o leve pássaro verde
- quase só peito, pluma e canto -
pousar manso em nossa mãos
e desdenharmos destruí-lo?

Será então o perpetuado descanso vazio,
a opção desesperada -
Apocalíptica?

........O que fazer quando as crianças
........precipitarem-se por sobre os prédios?
........O que fazer, irmão, quando os bilhetes
........suicidas não desdobrarem-se em mistérios?

Desperdaçar-se-hão então todos os laranjais
e a franja esperançosa será em trapos costurada
por negra linha - ó costureira da humanidade
Atropos! - que a ironia esbanja:
plantações de memoriais aureolados
em exalações de Agente Laranja.

Que fazer quando a infusão de lírio,
antes revelação interior, despertar
nossa latente confusão? Quando o tempero
cinza não mais colorir em arco-íris, mas amargar
em áspero desespero?

Será então o perpetuado descanso vazio,
a opção desesperada -
Apocalíptica?

........O que fazer quando as crianças
........precipitarem-se por sobre os prédios?
........O que fazer, irmão, quando os bilhetes
........suicidas não desdobrarem-se em mistérios?

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Mariposas

Diz-se que houve, certa vez, bandos de mariposas a flutuar no céu vazio. Que agitando as asas em alegria conjunta, de silenciosas risadas em brilhos, remavam rumo à luz cheia de sentido. Como uma procissão naquele grande mar ao avesso, naquelas noturnas planícies de éter.
(Quando penso nesta histórias, e se por acaso algum reflexo mais forte me toca às vistas, então imagino que as mariposas guardavam entre elas uma distância só longa o bastante para que não se tocassem, mas também estreita de tal forma que as víssemos não em constelações ou enxames, mas em buquês de asas em brancor.)
Mas eis que quanto mais próximas estavam da luz, mais vivazes e mais decididas punham-se a boiar rumo ao luminoso destino, clareando-se mais e mais seu objetivo até o momento do toque: e sua consumição junto ao calor de uma estrela que por pouco se apagava, mas que ainda hoje nos dá um pouco de luz e calor.

terça-feira, 7 de abril de 2009

INSIGHTS

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Amor geológico


Dedicado a Pedro "Gama" Cheliz

Não foi nosso amor como a
granulada planície, de campinas
a Sol penteadas e passarinheiro
de incenso natural. Não foi aquele
verdume em perene gestação que
em momento súbito
é rompido
por violentíssimo punho magmático.

Nosso amor foi o fresco mar
das volúpias tempestuosas e de ternas
calmarias, respiradouro do mundo
todo, manto da Terra encantado e corpo-
mônada dos peixes, que por seu bento
desprezo - microlancícolas solares - de que
acreditava nutrir-se quando se envenenava
e secava por séculos a fim até a
pureza última do amor
deserto de sal.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Tradução: Charles Bukowski - My Groupie



Charles Bukowski
My Groupie

I read last Saturday in the
redwoods outside of Santa Cruz
and I was about 3/4's finished
when I heard a long high scream
and a quite attractive
young girl came running toward me
long gown & divine eyes of fire
and she leaped up on the stage
and screamed: "I WANT YOU!
I WANT YOU! TAKE ME! TAKE
ME!"
I told her, "look, get the hell
away from me."
but she kept tearing at my
clothing and throwing herself
at me.
"where were you," I
asked her, "when I was living
on one candy bar a day and
sending short stories to the
Atlantic Monthly?"
she grabbed my balls and almost
twisted them off. her kisses
tasted like shitsoup.
2 women jumped up on the stage
and
carried her off into the
woods.
I could still hear her screams
as I began the next poem.
maybe, I thought, I should have
taken her on stage in front
of all those eyes.
but one can never be sure
whether it's good poetry or
bad acid.


Tomaz Amorim Izabel
Minha groupie

Eu lia sábado passado nos
bosques fora de Santa Cruz
e tinha quase terminado 3/4
quando ouvi um grito longo e alto
e uma jovem garota
bem atraente veio correndo para mim
longo vestido & divinos olhos de fogo
e ela saltou sobre o palco
e gritou: "EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME PEGA! ME
PEGA!"
Eu disse a ela, "olha, dá o fora
de perto de mim".
mas ela continuou se agarrando na minha
roupa e se jogando
em mim.
"onde você estava," eu
perguntei a ela, "quando eu vivia
com uma barra de doce por dia e
mandava contos para o
Atlantic Monthly?"
ela agarrou minhas bolas e quase
arrancou elas fora. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
carregaram ela para fora
nos bosques.
Eu ainda conseguia ouvir seus gritos
quando comecei o próximo poema.
talvez, eu pensei, eu devia tê-la
pego no palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas nunca se pode saber com certeza
se é poesia boa ou
ácido ruim.